O comércio internacional vem enfrentando alta no preço dos fretes marítimos e o movimento ocorre inclusive no transporte de mercadorias entre o Brasil e o mercado árabe. Apesar de não ser com a região que o Brasil tem os seus maiores fluxos de comércio – como é o caso da China e Estados Unidos -, quem trabalha com o setor afirma que o transporte de cargas por navios ao mundo árabe está com preços maiores.
chr38nbsp;
“Está impactando todo mundo”, afirma o diretor-executivo da Primo Logística, Augusto Ferraiol. A Primo atua com logística nos setores de armazenagem, transporte rodoviário nacional e transporte marítimo e aéreo nacional e internacional e é focada em alimentos. As operações com o mercado árabe envolvem a importação de produtos do Egito ao Brasil e exportação do Brasil a Egito, Emirados, Arábia Saudita, Líbia e Jordânia.
chr38nbsp;
O gerente comercial da TFA Cargo Logistics, Almir Baptista, percebe uma alta generalizada de preços nos fretes marítimos e dificuldades na contratação do transporte de cargas via navios. “Na exportação está bem complicado disponibilidade de navio e equipamento, não só para os países árabes, mas principalmente aqui na América”, diz. O foco principal da TFA, agenciadora de cargas, não é o mercado árabe, mas a empresa quer se voltar mais à região.
chr38nbsp;
O preço alto do transporte marítimo é sentido principalmente desde o final do ano passado, mas é uma história que começou em 2020, com o início da pandemia de covid-19. Paradas das indústrias em algumas regiões do mundo e dificuldade de conseguir matérias-primas em outras alteraram os volumes e endereços da produção, afetando as escalas e o vai-e-vem das cargas entre países. “chr38Eacute; como se tivesse uma desconfiguração do comércio mundial”, diz o presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro.
chr38nbsp;
A imprevisibilidade causada pela pandemia alterou a disponibilidade de navios, o que fez com que os preços subissem diante do aquecimento de alguns mercados neste ano. Ferraiol conta que, como não havia um horizonte para a economia no começo da pandemia, muitos navios foram devolvidos para empresas de leasing, outros antigos vendidos para sucata. A recuperação recente das economias da China, da Europa e dos Estados Unidos, no entanto, voltou a aquecer o mercado de transporte de cargas marítimas, que se encontrou sem tanta oferta e disponibilidade.
chr38nbsp;
Castro, da AEB, afirma que a falta de contêineres no mercado internacional também causou menor circulação de navios e diminuição de rotas – já que os navios não tinham contêineres com os quais circular – e contribuiu para o aumento “absurdo” dos fretes. “Muitos contêineres ficaram parados em determinados portos e com menor disponibilidade de contêineres no mundo, os navios reduziram rotas”, diz Castro.
chr38nbsp;
Custo em dólares
chr38nbsp;
Além do aumento do frete em si, as empresas brasileiras precisaram absorver a valorização do dólar frente ao real, já que o transporte marítimo é normalmente pago em moeda norte-americana ou em euros. Isso torna o Brasil menos competitivo diante de outros países com economias mais fortes e que ainda têm vantagens em malha portuária, terminais, velocidade de carga e descarga, tempo menor de retorno do navio.
chr38nbsp;
“No Brasil houve uma valorização do dólar na casa dos 50% do final de 2019 até hoje, você tem um encarecimento duplo, o tanto que subiu o dólar e o tanto que subiu o frete em si”, relata Ferraiol. Ele vê que o impacto maior acaba sendo para os importadores porque vendem a mercadoria em reais no Brasil, enquanto os exportadores vendem em dólares. Ferraiol conta que já teve clientes que cancelaram a importação por causa do custo de trazer a mercadoria.
chr38nbsp;
Contêineres
chr38nbsp;
Os problemas de disponibilidade e preços ocorrem principalmente no transporte marítimos de contêineres, mas já estão respingando nas cargas a granel. Na falta de navios de contêineres, muitas empresas estão fazendo acordos com clientes no exterior para vendas de volumes maiores e assim usando navios graneleiros para transportar os contêineres (alguns tipos de embarcações são adaptáveis) refrigerados, por exemplo, de acordo com Ferraiol.
chr38nbsp;
O diretor-executivo da Primo afirma que o aumento no preço dos fretes foi de cerca de 100% desde o começo deste ano até agora e que uma alta dessa proporção também é sentida por quem trabalha com o mercado árabe. Ferraiol acredita que os preços vão seguir elevados até final deste ano, talvez subam ou desçam um pouco, mas vê perspectivas melhores com a promessa de chegada no mercado de novos contêineres.
chr38nbsp;
O dia a dia
chr38nbsp;
Entre os que trabalham com a logística das cargas impera a preocupação diária de garantir o transporte para as mercadorias dos seus clientes. “Os armadores não estão fazendo reservas mais para junho, estão liberando aos poucos para que a gente possa já ir no sistema deles e ver se tem disponibilidade para a primeira, segunda semana de julho”, relatou Baptista, da TFA Cargo, há cerca de uma semana. Para conseguir o transporte, é preciso se antecipar. “Não tem como conseguir para semana que vem, muito difícil”, afirma Ferraiol, da Primo.
chr38nbsp;
Como os grandes gargalos atuais no transporte marítimo de cargas estão em navios de contêineres e o Brasil exporta aos países árabes principalmente commodities, José Augusto de Castro acredita que os problemas de frete estejam impactando menos o comércio com a região do que com as vendas a outros mercados aos quais o País fornece manufaturados. Das exportações totais brasileiras, apenas 20% é produto manufaturado. Já nas importações brasileiras, os manufaturados representam 85%, de acordo com o presidente da AEB.
chr38nbsp;
Apesar das dificuldades da logística mundial, os números mostram que o Brasil vem entregando regularmente seus produtos ao mercado árabe e, inclusive, aumentando as vendas. De janeiro a maio deste ano, as exportações do Brasil aos países árabes cresceram 19% em receita e 16% em volume, segundo informações compiladas pela Câmara de Comércio Árabe Brasileira com base em dados do governo federal.